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Boa Tarde, Senhora Professora!

Desde segunda-feira que eu e Elizabeth estamos dando aula de alfabetizacao para criancas numa escolinha que estava sem alfabetizador

 

 

 

Desde segunda-feira que eu e Elizabeth estamos dando aula de alfabetização para crianças numa escolinha que estava sem alfabetizador (animador, como chamam aqui). Ainda não se tem previsão de quando se vai conseguir um animador da própria comunidade, pois as duas anteriores desistiram porque os pais não queriam pagar os 10 Meticais mensais (isso corresponde a 0,33 de dólar americano ou aproximadamente 0,60 centavos de real brasileiro). Esse dinheiro é pouco aqui, mesmo para as comunidades mais pobres não é algo assim tão inacessível mensalmente e iam diretamente para pagar o animador. Mas agora o dinheiro que as crianças pagam é para a própria escola, já que somos voluntárias, são convertidos em melhorias como consertar o teto, aparar o mato nas redondezas e etc.

 

São cinco dias por semana das 13H às 15H, os primeiros dias foi um sacrifício, mas já conseguimos encaixar esse horário meio ingrato na nossa rotina. Uma pergunta que devem estar se fazendo é do por quê um horário como esse e não de manhã. A razão principal é a refeição. Os moçambicanos em geral, mas principalmente das comunidades mais pobres, não comem de manhã, tomam somente chá. Na hora do almoço é que fazem o mata-bicho (primeira refeição do dia, para nós o café-da-manhã), e criança sem mata-bichar não presta atenção e reclama que barriga dói. 

 

Atualmente temos quinze crianças e vão desde as mais atenciosas e espertas até crianças com déficit de atenção e atraso no desenvolvimento. Todas, de uma forma geral, são uns doces e adoram simplesmente ter um espaço para brincar além da alfabetização, porque a criança africana em geral trabalha muito e não tem muito tempo para brincar, especialmente com outras crianças. Por isso mesmo, dedicamos uma hora para alfabetização e uma hora para brincar. 

 

As condições físicas são impressionantes: nessas fotos já tem esteiras, mas começamos com todos sentando no chão de areia mesmo, até pulga tinha, mas já foi aplicado um pesticida. As crianças ajudam a transportar quadro negro e outros materiais que ficam na casa de uma das organizadoras da escolinha. Contamos com imprescindível apoio de um cajueiro majestoso que ocupa o “pátio” da escolinha, é lá que realizamos nossas brincadeiras. Como não se tem mesas nem cadeiras, fica difícil ensinar a escrever sem apoio, mas isso é África: terra onde as pessoas simplesmente aprendem a criar soluções com o pouco que se tem, então estamos buscando alternativas como, por exemplo, deitar no chão para escrever, daí a importância das esteiras também.

Não espero continuar por muito tempo aí nessa escolinha (embora esteja apaixonada pelo trabalho!), porque a comunidade precisa aprender a se auto-gerir, o que significa ter um animador que seja da própria comunidade e não vá embora em menos de 10 meses... Mas o tempo que tenho estado por si só já tem sido uma experiência muito enriquecedora. Vai para além de enfrentar os desafios da falta de infra-estrutura ou de conhecer um pouco mais da língua local que acaba por ser usada pelas crianças muitas vezes, é adentrar numa cultura em que a educação tem outra velocidade e que as pessoas têm outras maneiras de aprender... E adivinhem só? Não tem ninguém para nos ensinar que maneiras são essas. Fazendo e aprendendo: modo áfrica.


Written by Isabela Oliveira, Child Aid Inhambane
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